segunda-feira, 26 de março de 2012

Jornada



Na semana passada, percebi na PlayStation Network (PSN) um certo borborinho acerca de um novo jogo chamado Journey. Não dei muita atenção, porque em primeira instância não fui atraído pelo que vi. Porém, neste último final de semana, lendo algumas mensagens num fórum de games, fiquei bastante curioso porque praticamente todos falavam muito bem do jogo, numa rasgação de seda que há tempos não se via! E isso sim me chamou a atenção! Pra TODO mundo falar bem de um jogo deve mesmo ter alguma coisa de interessante nele. Então liguei o PlayStation 3 e adquiri o referido junto a PSStore – desculpe XBoxs users, mas é “only for PS3”. 30 minutos de download depois, estava eu me aventurando no mais incrível, no mais sensacional e em um dos mais belos jogos que já tive o prazer de jogar até agora.

É um pouco complicado tentar definir Journey como um jogo. É muito mais que isso. É um misto de aventura, de busca, de arte, de contemplação. Tudo isso misturado a uma história que praticamente não tem um porque. Tudo flui de acordo com a sua interpretação e também de como você conduz. Nesse meu review pessoal, vou tentar passar um pouco do que senti (e ainda estou sentindo, pois não terminei ainda) ao jogar essa maravilhosa obra-prima do mundo dos jogos.

Falando um pouco da parte técnica, Journey é um jogo de aventura produzido pelo estúdio americano Thatgamecompany, o mesmo que produziu alguns games de sucesso para o PS3, como Flow e Flowers! É um jogo que em nenhum momento tenta se parecer com qualquer outro jogo já lançado. Você logo de cara percebe isso porque nele não existe barras de energia, magia, estatísticas, números, comandos variados, diálogos e menus avançados. A simplicidade de Journey é ímpar e ela se faz valer com uma harmonia excepcional.


É um pouco difícil comentar do enredo de “Journey” sem estragar a festa... Afinal, o jogo não tem nenhuma espécie de diálogo ou qualquer tipo de texto que esclareça ao jogador o que se passa. A única coisa presente é uma forma remota de comunicação feita através da emissão de sons de diferentes notas musicais. Não, não tem nada a ver com um jogo de música, mas é desta forma que o personagem principal, uma espécie de entidade não- identificável, se guia pelo mundo do game e se comunica com outras criaturas de igual singularidade. A premissa  do jogo é uma só: atravesse o deserto, as cavernas, algumas construções remotas, algumas colinas de gelo e chegue ao topo de uma montanha aparentemente sagrada. Mas não pense que a sua missão será uma das mais fáceis. O jogo faz questão de te “enganar” e frisar que ali, além de jogador, você também é um espectador interativo, e terá que cumprir uma série de desafios para prosseguir. Falando um pouco das imagens, o visual do título é embasbacante. O foco não é no realismo e muito menos nas texturas super apuradas. Os pontos fortes são a plasticidade, a beleza artística e o design de interação de fases. Por isso, “Journey” consegue ser muito mais atrativo visualmente do que muitos jogos hoje em dia. A composição sonora é um espetáculo à parte. O som de flautas e de instrumentos mais serenos compõem canções variadas que tocam a todo momento e transmitem uma sensação de paz e solidão únicas. O mistério que abrange o mundo do game e transparece em cada momento da aventura é potencializado com as músicas que tocam nesse meio termo. Levando em conta que as variações de tom, ritmo e cadência de cada uma delas consegue adicionar um algo a mais, é fácil identificar que o encaixe das melodias nas mais diversas situações foram escolhidas a dedo – e a ouvidos.


Você poderá jogar “Journey” sozinho, o que já é extremamente divertido,  ou então numa novíssima modalidade multiplayer online. Sim, meu nobre, o jogo também pode ser jogado em grupo. Ou melhor, em dupla. Durante partida, o jogo está o tempo todo conectado à internet e, a qualquer momento, um outro jogador, de qualquer parte do mundo que esteja jogando no mesmo capítulo que o seu, pode se juntar à sua jornada. Num primeiro momento, a ideia parece um pouco estranha e retrógrada. Isso porque o jogo não permite nenhum tipo de comunicação, seja ela por mensagem, por textos ou por voz. Além disso, nem sequer mostra o nick ou o nome do outro jogador para que, em caso de necessidade – ou curiosidade –, possa-se entrar em contato para combinar partidas futuras ou objetivos secundários. Mas, pensando bem, não é exatamente essa a proposta do game? Lembram-se do protagonista não identificável, da ausência de texto, diálogos e detalhes do enredo? Tudo o que existe para aproximar os dois jogadores, agora vagando numa imensidão quase infinita são os poucos sons. Da mesma forma que a aventura solo, a emissão de nota musicais é a única forma de comunicação entre ambos. Jogada bastante minimalista e inteligente da produtora, uma vez, ao mesmo tempo em que se deseja dizer algo ao novo companheiro, por vezes será preciso decifrar o que ele quer de você, como uma ajuda em um puzzle, alguma área nova que quer mostrar, recarregar o lenço de flutuação, e assim por diante. É uma situação envolvente que lembra muito a comunicação rudimentar entre alguns animais (uso do instinto) e humanos ou de duas pessoas que não conhecem a língua de origem da outra. O contato imediato, por ser inesperado e em tom surpresa, causa estranheza momentânea pela dúvida do que exatamente fazer. Agora você tem um ser da mesma espécie, no mesmo mundo e com os mesmos objetivos que o seu. Sendo assim, basta seguir normalmente e ir completando os puzzles, mas agora com a ajuda de um parceiro que, por mais que esteja próximo, você nunca chegará a conhecê-lo de verdade. E é exatamente nesse antagonismo do falso-conhecido que o jogo  agrada mais ainda no modo online.


Finalizando, “Journey” é tocante, emocionante, envolvente e único. Sem dúvida alguma, é um jogo que merece uma chance para ser jogado e explorado. Lendo algumas mensagens no mesmo fórum que me fez querer jogar, pude perceber que cada pessoa entendeu e o jogou de um jeito, criando os seus próprios entendimentos e viagens para a jornada. Teve até jogador que comparou o jogo com a própria vida, onde você é meio que jogado neste mundo e inicia sua grande jornada em busca de auto-conhecimento e razões para a sua existência.

Portanto, se você for um feliz proprietário de um PlayStation 3, não precisa pensar duas vezes. Separe aquele dinheirinho da jurubeba e da ponta-de-peito e compre “Journey”! Vale cada real investido. Quem sabe a gente não se esbarra por aquele belo e intrigante mundo. O ruim é que nunca vamos saber que somos nós! Nunca mesmo! Mas quer saber? Isso é a última coisa que importa nessa fantástica jornada!

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