segunda-feira, 15 de agosto de 2011

É Tempo De…– Parte II – A Saucerful Of Secrets (1968)




Conhecer o amor é conhecer a sombra
O amor é a sombra que amadurece o vinho
Ajuste os controles para o coração do sol”

A Saucerful Of Secrets é o segundo álbum de estúdio do Pink Floyd e é o único a reunir todos os integrantes que passaram pela banda: Syd Barrett (vocal/guitarra), David Gilmour(guitarra/vocal), Roger Waters (baixo/vocal), Nick Mason (bateria) e Richard Wright (teclado/vocal); e marca o final da era Barrett. Essa época marca também o impasse e as dúvidas sobre os rumos do Pink Floyd, uma vez que o genial compositor e membro fundador, Syd Barrett estava com sua saúde mental deteriorada e muito precária (em parte devido ao uso desenfreado de LSD), e já demonstrava sinais evidentes de sérios transtornos.
A ideia inicial dos membros do Floyd foi chamar David Gilmour (amigo de infância de Barrett e Roger Waters em Cambridge) para substituir Syd Barrett em apresentações ao vivo, e manter Syd na banda, para composições e criações no estúdio. Mas, infelizmente, não deu certo! Syd Barrett já não tocava mais guitarra, ignorava os compromissos, e não participava mais da banda. E ficou a pergunta: O que seria do Floyd sem o seu gênio criativo? O processo de criação ficou distribuído entre todos os integrantes, com Roger Waters assumindo a liderança do Pink Floyd. Se o primeiro álbum “Piper At The Gates Of Dawn” foi marcado por muitas experimentações, em “A Saucerful Of Secrets” as experimentações foram elevadas a níveis muito maiores, e cada integrante do grupo pode contribuir de maneira mais efetiva, expandindo as possibilidades sonoras do Pink Floyd. A música do Floyd quebrava todas as fronteiras sonoras. Embora já não participasse ativamente da banda, esse álbum contou com a participação oficial de Syd Barrett, que saiu antes do lançamento, ou melhor, os outros integrantes “saíram” com ele. O álbum contava com as influências de Barrett, o que é perfeitamente compreensível (indiscutível sua importância como compositor/músico e membro fundador), uma vez que essas influências sempre serão encontradas ao longo das obras do Pink Floyd; mas “A Saucerful Of Secrets” mostra com nitidez a intenção dos outros Floyds de buscarem novos rumos para a sonoridade da banda, e saírem da “Sydependência”. Vale lembrar que, além de amigo, David Gilmour foi professor de guitarra de Syd Barrett. Evidente que essa amizade com Barrett e Waters, facilitou muito seu entrosamento com o Pink Floyd. Gilmour já tinha forte ligação com a banda, além de ser um músico de muito talento, todos estes fatores contribuíram para se encaixar perfeitamente na banda. O disco, que foi lançado em junho de 1968, é a estréia do “rock espacial”, o êxtase através do banho de sensações auditivas. Mais uma vez e já seguindo o que viria a ser uma tradição, a capa do álbum também é uma viagem. Olhando para ela muito atentamente, você percebe que são colagens de várias imagens. Hoje qualquer design meia-boca munido de um computador com o photoshop é capaz de fazer milagres, mas lembre-se que estamos em 1968! Uma curiosidade é que alguns desenhos que ilustram a capa foram recortados de revistas em quadrinhos da Marvel. Mesmo com todas as limitações da época, a capa de “A Saucerful Of Secrets” é muito boa, mantendo todo o clima espacial, viajante e psicodélico que era a proposta do Floyd nessa época. Vou comentar agora um pouco sobre cada faixa, lembrando sempre que “Pink Floyd não se ouve... Se experimenta!
1) Let There Be More Light, autoria de Roger Waters com 5’:38“ Vocais: Richard Wright, David Gilmour e Roger Waters. Essa faixa conta com uma base de baixo hipnótica, e também com o primeiro solo de guitarra de David Gilmour num álbum do Pink Floyd.
2) Remember a Day, autoria de Richard Wright com 4’:33” Vocal: Richard Wright, é uma belíssima faixa, com uma psicodelia e suavidade refrigerante, uma canção que te conduz a lugares muito confortáveis. Demonstra o enorme talento deste Floyd pouco valorizado pela mídia em geral.
3) Set The Controls For The Heart Of The Sun, clássico de autoria de Rogers Water com 5’:28” Vocal: Roger Waters, única faixa a reunir os 5 Floyds, nesta faixa tocam guitarra David Gilmour e Syd Barrett juntos. Destaque para a bateria tribal de Nick Mason. Uma faixa ímpar, envolta numa aura de mistério. Emblemática, nebulosa, viajante e progressiva, trilha sonora de uma viagem inter galáctica.
4) Corporal Clegg, autoria de Roger Waters com 4’:13”, Vocal: David Gilmour e Nick Mason, essa faixa tem aquele psicodelismo em tom de diversão, típico do “Piper At The Gates Of Dawn”, fala sobre um soldado com perna de madeira, e menciona a Segunda Guerra Mundial. Roger Waters disse que essa canção se refere a seu pai e suas dificuldades na Segunda Guerra.
5) A Saucerful Of Secrets, autoria Roger Waters/Richard Wright/David Gilmour/Nick Mason com 11’: 57”, nessa faixa os instrumentos buscam experimentações sem fronteiras, criando uma atmosfera sonora caótica . Após o caos sonoro atingir o clímax, nasce uma suavidade musical que conduz o ouvinte ao santuário. Uma obra prima do rock progressivo!
6) See Saw, autoria de Richard Wright com 4’:36”, Vocal de Richard Wright, outra bela contribuição de Rick, é uma balada em tom psicodélico.
7) Jugband Blues, autoria de Syd Barrett com 3:00', Vocal: Syd Barrett, é a última faixa dele a entrar num álbum do Pink Floyd. Uma boa oportunidade para curtir seus últimos momentos na banda. Esse álbum consolidou o rótulo da música do Pink Floyd como ”Space Rock”, e também podemos dizer que este disco é um dos marcos do rock progressivo. Longas passagens instrumentais, músicas de longa duração, desenvolvimento de um tema central, composições e arranjos complexos.
A Saucerful Of Secrets é um álbum de transição da banda para uma nova etapa, que começa a definir e a traçar o escuro e os impulsos repetitivos que caracterizariam os próximos trabalhos. Definitivamente, não é um disco de fácil digestão, pois muita gente conhece mais o Pink Floyd por discos mais comerciais, porém é um disco excelente, cheio de nuances e riquíssimo em detalhes sonoros, um prato cheio para músicos da atualidade se inspirarem.

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