segunda-feira, 29 de agosto de 2011

É Tempo De… – Parte V - Atom Heart Mother (1970)



“Nós dissemos adeus antes de dizermos olá
Dificilmente eu gostaria de você
Eu não me preocuparia afinal”

Naqueles dias iniciais dos anos 70, o mundo ainda vivia o efeito devastador da transformação social ocorrida no final da década passada. Pairava a expectativa de sobre como tudo reagiria dali por diante após tão radicais mudanças. Isso também estava ocorrendo no cenário musical. O fim da era Beatles (antes que algum fã me dê um tiro - pelo menos da banda em si) fazia com que a atenção não só do público, como da crítica e, sobretudo, das gravadoras, se dispersasse em direção a outros artistas que apareciam com destaque no fim da década passada. Dentre as novidades, uma delas se destacava como a viga mestra de um movimento que ganhava corpo a cada dia, o psicodelismo. Seu nome? Pink Floyd.
Os dias atravessados por Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright, porém, não eram nada comparados aos passados acerca de três anos antes. Originária de um sucesso de público e crítica devido ao conceito criado sobretudo por Syd Barrett, era visível a crise de criatividade e o abalo emocional vividos após a saída de seu mentor original. Após a estréia marcante com o aclamado “The Piper at the Gates of Dawn”, e o conseqüente estrelato, veio o contestado “A Saucerful of Secrets”, última obra de Barrett com o grupo. Sucederam, já com Gilmour nas guitarras, várias participações em trilhas sonoras em filmes, com destaque para “More” e “Zabriskie Point” e o conceitual “Ummagumma”, o álbum duplo que reunia, em um disco, quatro faixas ao vivo e, no outro, faixas solo de cada um dos integrantes. Quando os anos 70 chegaram, contudo, um novo álbum precisava ser lançado.
Então, trancafiados nos estúdios da EMI, em Abbey Road, o Pink Floyd deu início às gravações daquele que seria um dos discos mais importantes da história do rock mundial. “Atom Heart Mother”, a música, se apresentou como uma grande peça teatral, subdividida em seis atos. O resultado foi grandioso. A gravação contou com estrutura digna de uma orquestra sinfônica, estando presentes um cello solo, uma dezena de instrumentos de sopro – com destaque para o solo de trompas francesas – e um coral de 20 pessoas, sob a regência do maestro John Alldis. Foi um foco de luz à frente do Pink Floyd, mostrando as extensões e os caminhos que a banda iria desenvolver e trilhar nos próximos trabalhos. O álbum trazia as seguintes faixas:
Lado 1
1. "Atom Heart Mother" (Mason, Gilmour, Waters, Wright, Geeser) 23:44
a. "Father's Shout"
b. "Breast Milky"
c. "Mother Fore"
d. "Funky Dung"
e. "Mind Your Throats, Please"
f. "Remergence"
Lado 2
1. "If" (Waters) 4:31
2. "Summer '68" (Wright) 5:29
3. "Fat Old Sun" (Gilmour) 5:24
4. "Alan's Psychedelic Breakfast" (Waters, Mason, Gilmour, Wright)
a. "Rise and Shine"
b. "Sunny Side Up"
c. "Morning Glory"
Atom Heart Mother é um disco que dividi os fãs da banda entre os que o amam e os que o odeiam. Foi um trabalho que insistiu na ideia de que todos compusessem as faixas, embora agora não tocassem sozinhos, como em Ummagumma, mas em conjunto. O disco trazia junto várias peculiaridades: primeiro o título, tirado de última hora de uma notícia sobre uma mulher com um marca-passo no coração que dera luz. Além da música, o disco também tem uma das capas mais enigmáticas da história da música. O bovino mais famoso do rock mundial aparece tanto no vinil, quanto no CD. A rês Lullubelle III, uma cruza das raças holandesa e normanda (ao contrário de suas colegas da contracapa, puramente holandesas), foi fotografada em uma propriedade rural do interior da Inglaterra. A gravadora pagou ao dono da propriedade cerca de mil libras pelos “direitos de imagem” do animal. A propriedade virou ponto turístico, e Lullubelle, uma celebridade.
A primeira (e única) música do Lado A tem uma duração aproximada de 24 minutos. O início é impactante com “Father’s Shout”, onde é dada uma pequena demonstração do virtuosismo do grupo, tendo ao fundo a desafinação dos instrumentos de sopro simulando vozes humanas. Após, vem “Breast Milky”, marcada pela impecável interpretação do coral, sustentada pela melodia marcante dos teclados de Wright. “Mother Fore” retoma a instrumentalidade da faixa, com uma estrutura bluesística, alternada com vocais furiosos. “Funky Dung” apresenta a experimentação das faixas em estúdio de “Ummagumma”, onde uma mescla de ruídio estereofônicos criam um cenário de suspense, originando uma estrutura que viria a ser retomada em “Echoes” (do álbum Meddle) e “On The Run” (de Dark Side of The Moon). “Mind Your Throat Please” retoma a musicalidade da canção. O grand finale vem com “Remergence”, que repete as estruturas da primeira parte, em um final apoteótico. A faixa era uma experiência auditiva fantástica, visto que o álbum foi um dos primeiro a ser gravados no sistema quadrofônico estéreo, que subdividia o som de cada instrumento em um canal diferente para o ouvinte. Algo complexamente trabalhado que tomou o lado A inteiro do álbum, numa experiência inédita no Rock mundial. Quando Roger Waters ouviu David Gilmour tocando as partes de guitarra para essa música, ele disse que soava parecido com a música tema para o filme Sete Homens e um Destino. Uma curiosidade interessante foi que o cineasta Stanley Kubrick quis usar essa faixa no filme Laranja Mecânica, mas a banda recusou permissão.
O lado B do álbum começa com a cativante “If”, de autoria de Waters. À primeira vista parece uma cantiga de ninar, porém, quando examinada a letra se vê uma forte ode à insanidade humana. A temática seria a marca registrada de Waters para o resto da carreira. O violão dedilhado cortado pela guitarra de Gilmour é um clássico. A letra, marcada por suposições, (vide os versos “If i were a swan, I’d be gone / If I were a train, I’d be late / If I go insane / Please don’t put yoru wires in my brain”) foi feita, sem dúvida, em homenagem a Syd Barrett e seu momento difícil. Segue-se a esta “Summer 68”, uma das melhores músicas do grupo. De autoria de Wright, trata-se de uma canção singela sobre um relacionamento efêmero seu com uma groupie no verão de 1968. A música segue o seu curso normal até que, de repente, é cortada pela clássica intervenção de Gilmour gritando “How do you feel?”, como se questionando o ouvinte do que sente no momento. Então se percebe presença de metais em estilo barroco, ilustrando o clima da música. Após a retomada da normalidade, a segunda intervenção é feita por toda a orquestra presente na gravação de “Atom Heart Mother”, numa mistura única de sons vista na história da música contemporânea.
A faixa de Gilmour, “Fat Old Sun”, traz a mesma estrutura melodiosa anteriormente apresentada pelo grupo na faixa “Green Is The Colour”, da trilha do filme “More”. Trata-se de uma balada, onde a melhor parte, sem dúvida, é o solo de guitarras no fim da faixa. “Fat Old Sun” ficou famosa por ser a música de trabalho do álbum e pela interpretação forte do grupo em seus shows ao vivo, em quase nada lembrando a versão calma gravada em estúdio. O disco acaba com “Alan Psichedelic Breakfast”, outra faixa conceitual. Com duração de cerca de 13 minutos e subdividida em três atos (“Rise and Shine”, “Sunny Side Up” e “Morning Glory”), a faixa consiste basicamente em experiências estereofônicas que buscam retratar sonoramente o café da manhã de Alan Stiles, um dos roadies do grupo. Na faixa, é possível ouvir o bacon fritando e alguém fazendo sua higiene pessoal. A música só foi interpretada uma vez ao vivo, tendo a banda, no palco, fritado o bacon e tomado café em frente a um incrédulo público.
O interessante do álbum é que, mais uma vez, o disco divide os membros. Roger Waters disse que esse disco deveria ser jogado no lixo e ninguém nunca mais deveria ouvi-lo. E que mesmo se hoje alguém lhe desse 1 milhão de libras para ele tocar o disco, ele não o faria. “Era um álbum muito pomposo e também não era sobre nada”, afirma. David Gilmour também compartilha a mesma opinião de Waters, tanto para Ummagumma (o disco anterior) quanto para Atom Heart Mother. Na sua opinião, “o disco é horrível. A ideia até que era muito boa, mas o disco em si foi terrível”. Segundo ele, foi o momento mais baixo da banda. Já Nick Mason o considera válido para aquele período, especialmente porque aprenderam muito sobre técnicas de gravação. No palco, a faixa favorita da banda era "Fat Old Sun", onde Gilmour começava a se firmar como um dos maiores guitarristas da década. O disco acabaria chegando ao topo da parada britânica, embora ficasse apenas na 55ª posição, na América. Seria uma nova era para a banda, que alcançaria o ápice três anos depois.
Atom Heart Mother é um álbum até hoje incompreendido por grande parte do público. Inegáveis são, contudo, a sua qualidade de vanguarda e a influência que causou na música, não só de um modo geral como também no próprio grupo. A idéia de disco conceitual foi a partir daí desenvolvida, influenciando vários outros grupos musicais. As inovações sonoras do álbum foram mais tarde desenvolvidas pelo próprio grupo em praticamente todas as outras obras da banda, com ou sem Waters.

Um comentário:

Júnior Pinto disse...

"uma cruza das raças holandesa e normanda (ao contrário de suas colegas da contracapa, puramente holandesas)". CARACA, aí você pesquisou a fundo !!!

Um detalhe que passou em brancas nuvens no texto foi que a parte com a orquestra em "Summer 68" foi tema de abertura/encerramento do Jornal Nacional, da Globo, no início dos anos 1970.