domingo, 6 de novembro de 2011

É Tempo De… – Parte IX – The Dark Side Of The Moon (1973)



“Por muito tempo você vive e você voa alto
E sorrisos você dará e lágrimas você chorará
E todo o contato que você ter e tudo que você vê
É toda a sua vida nunca vai ser.”
No exato momento em que o pulsar frenético de um coração ansioso começa a soar alto, eu me ponho a escrever! Escrever não, divagar seria o mais certo, sobre esta maravilhosa obra-prima de todos os tempos. Escrever sobre The Dark Side Of The Moon em toda a sua grandiosidade é algo muito, muito complicado. O álbum é indescritível. Penso que dizer que “The Dark Side of the Moon” é um álbum conceitual de 1973 do Pink Floyd, que fala sobre as pressões da vida, como tempo, dinheiro, guerra, loucura e morte é muito pouco do que ele, de fato, é. Acredito que não existam palavras que possam expressar o que é ouvir Dark Side. Mas eu, envolto em minha humilde tarefa, tentarei. Tentarei descrever aqui um pouco de tudo o que girou (e ainda gira) em torno desse trabalho. Porém, dessa vez será um pouco diferente. Diferente no sentido de que se tem muito a se dizer e não quero deixar o review muito extenso. Então vou dividi-lo em duas partes, tal como o vinil: lado A e lado B (valeu Jr. Pinto pela ideia). No lado A, entrarei numa área mais “poética” e “viajante” da obra-prima, ou seja, numa visão mais Roger Waters. Já no lado B será uma concepção mais David Gilmour, uma parte mais técnica, mas nem tão pouco psicodélica, com sintetizadores, geradores e tudo o mais que foi usado para a concepção do que é considerado “o disco do milênio”! Você vai entender o porque e compreender uma parte da sua vida e do seu lado negro nas próximas linhas...

Lado A – A Viagem Roger Waters

“The Dark Side of the Moon”... O que dizer sobre esta obra de arte? Sobre esta ópera? Se a primeira metade do século 20 teve Charlie Parker e Salvador Dalí, a segunda metade teve Pink Floyd e The Dark Side Of The Moon. Como afirmaram na época de seu lançamento: "Com certeza The Dark Side é uma das principais manifestações artísticas dos últimos 50 anos". E porque isso? Porque vendeu? O que mais? Porque é uma análise do homem contemporâneo tão profunda que ligou-se a todos que a ouviram. Fez a conexão com o homem representado no homem e mulher que a ouviu. Ocorreu com ela uma ligação inconsciente que ultrapassou a ligação "ouço esta música porque me apetece" (nenhuma música que se preze como profunda nos liga a ela por ser "legal" somente. Esse "legal" nela serve à intenções mais obscuras de conexão com a alma individual e com o Eu coletivo, por isso gostamos dela com o mesmo fascínio). Ocorreu um fenômeno, uma transferência de projeção, como se as dúvidas e contemplações do homem como sociedade nesta obra produzisse "quadros" em nossa mente ou então figuras de identificação. Ao descer até o mais profundo escuro do homem coletivo, também desceu às nossas mentes individuais até chegar no inconsciente lado negro de nossas luas. Esta obra foi um sucesso não só pela campanha publicitária, mas pelo simbolismo do homem da época (e até hoje), que não entendia as sociedades em que viviam e de forma quase instintual compravam o álbum vidrados pelo primeiro "quadro" de identificação: a pirâmide da capa com um arco-íris saindo dela, como um tipo de prisma que reflete e redireciona a luz, no caso a luz que sai da compreensão da pirâmide misteriosa de nosso inconsciente enterrado sobre pás e pás de terras do dia-a-dia. Interpreto assim: a luz branca desnutrida que vem da esquerda (o lado representativo do inconsciente) para a pirâmide (o desconhecido ou também o espiritual, o oráculo das respostas) é o pensamento à respeito do inconsciente (as letras da obra) que chega à fonte piramidal, à alma que responde à mente; e o arco-íris que sai da pirâmide rumo à direita (o lado representativo da razão) é a sabedoria, que é colorida de respostas advindas das origens da pirâmide. Como se a luz branca fosse o Pink Floyd que questiona à pirâmide e o arco-íris fôssemos nós que saímos com a sabedoria deles. Discordo do seu criador, Storm Thogerson, que diz que a capa representa um símbolo também de cobiça. Na verdade, acredito que é uma resposta à cobiça.
É interessante e antigo o paralelo entre luas e pirâmides de "The Dark Side of the Moon". Nesta obra parece que a lua é o inconsciente retratado em seu misterioso social coletivo de passos eufóricos e risadas viciadas e a pirâmide é a obra em si que procura um elo salvador doador de respostas pela questão posta. Eu visualizo a lua como as letras e o instrumental como a pirâmide, exceto em "Us And Them", aonde o instrumental soa lunar e em "Eclipse" aonde o vocal soa a pirâmide. Creio que em "Us And Them" há uma divisão no álbum, "Money" o divide em dois, e, na segunda parte, o vocal passa a ser as pirâmides e o instrumental lua. A lua instrumental age sob nosso entender piramidal. Ao inverso do que ocorre antes de Money, aonde as letras têm mais inseguranças e justificativas mundanas. Parece que a primeira parte é o homem concluindo energeticamente e respondendo a si... E a segunda parte é o homem perguntando a Deus que responde através da sabedoria do homem. No final nenhuma resposta agrada à Waters e cia. "And the sun it´s eclipsed by the moon" (E o sol está eclipsado pela lua) termina o álbum como o começa, como um mistério, mas com um grau de etérico anos-luz da dúvida chapada do início. "The Dark Side of the Moon" é uma volta pela dúvida humana, que a conclui no céu, na lua, talvez vendo a lua como o primeiro ser lunático de todos.
"The Dark Side..." é uma busca pelo som... O instrumental e o canto intercalado podem ser medidos como a pulsação cardíaca por aparelhos parecidos que indicam a intensidade de um som por um gráfico numa tela (como aquelas telas de TV de hospital em que se vêem os sinais de vida quando uma pessoa leva um eletrochoque, vemos esse mesmo gráfico nos letreiros do final do documentário sobre "The Dark Side" da série "Great Álbuns”). O instrumental do álbum é passado instintivamente sobre esta base de comparação. As notas agudas dos solos de Gilmour formariam ondas maiores num gráfico, e essas ondas sonoras, se você notar, são formas de triângulos. Triângulos medidos que tentam desenterrar um passado. É o que parece esse instrumental composto tão instintivamente por eles. Será que as antigas pirâmides eram tentativas de representar o som que soa visualmente como triângulos num gráfico? Se descobrissem as notas em acorde que eram as vibrações do universo (como perceberam os hindus), talvez sim. Essa é a razão do Pink Floyd de fazer a analogia com o coração que pulsa no início e fim da obra. Mesmo que inconscientemente, coletivamente eles criaram o som, talvez até geometricamente, como os batimentos do coração e a respiração humana.
Ao se entregar aos seus mais autovalorizados pensamentos interrogatórios no momento da concepção do álbum, Roger Waters criou um instinto artisticamente, ansioso por respostas dentro de si e que o religou com o seu passado. A banda sabia que alguma coisa muito interessante estava sendo criada com The Dark Side. Com os pés no passado a banda olhou para o futuro. Perguntaram como alquimistas e responderam como sacerdotes. De alguma forma, Waters soube que sons evocam pirâmides. Digamos que, de alguma forma, soube que a música é o som da pirâmide. É a pirâmide do ouvido. Talvez seja porque fossem eles GANDARVAS (como afirmou o mestre Srila Prabupada, que era guru de John Lennon e George Harrison e fã do Pink Floyd). Gandarvas são músicos que vieram do mundo de GANDARVALOKA, um mundo mais sutil e sensível. "Aonde está a alma que eu perdi em algum lugar?" Pergunta The Dark Side. À semelhança de um eremita que procura o sentido da vida no alto de uma montanha e volta com ele à nós. Neste álbum, as partes escuras da dúvida humana são acesas com lampiões de luzes da interrogação. Tanta questão jogada ao acaso e The Dark Side é o reflexo de toda a nossa falta de significância. O mundo atual parece que relegou nosso valor de ser à produtos comerciáveis. É preciso ter forte atitude individual para emergir do oceano da mercantilidade de hoje em dia. É preciso assumir riscos com a condição objetiva de não ligar para eles. Quando somos pequenos, projetamos nos pais a imagem de nossa realização, vamos crescendo projetando-a em diversas figuras e em diversos aspectos, mas quando achamos o centro em nós, passamos a ter uma certeza de vida que se esclarece como um aspecto, a segurança. Waters, segundo o que se subentende do que disse, foi criado de um modo que visava a descrença em si como um ser autônomo e independente (como muitos foram criados), e isso, creio eu, fazia com que ele projetasse a figura da significância em sua mãe anormalmente. Especificamente em The Dark Side, ele se liberta da sombra de sua mãe e conclui suas ideias na autonomia do ser. Conclui sua pirâmide como um automestre. Se elevou ao não conseguir mais ninguém para si mesmo, como um auto-suficiente eremita conforme a vida o empurrava para tal alcance. Ele adentrou nos lapsos de ermitão que todo jovem tem ao olhar para o nada. Por isso The Dark Side soa tão sereno e despreocupado e suas questões mais parecem ser respondidas nas próprias perguntas do que parecem clamar por alguma resposta. Parece que as coisas são porque... Por que simplemente são. Em The Dark Side tudo é concluído com a serenidade do mistério, parece uma cooptação à natureza, logo, ao inconsciente. Waters se identificou tanto com a figura do Eremita que aconteceu o que acontece uma figura assim, ele se inflou e, em termos, vegetou. Um pré-Syd Barret em estágio, mas "viajado" no intelecto, tamanha sua perspicaz inteligência racional. É claro ver a relação entre o compositor Roger Waters e o homem Roger Waters que processou seus colegas de banda depois. Ele teorizou seu futuro no desespero. E aposto que hoje ouve sua antiga banda deitado em sua cama viajando mais plenamente com os solos de Gilmour do que com qualquer parte de si ali, quem sabe... Talvez hoje nem Waters nem Gilmour entendam seus papéis cumpridos no Pink Floyd.
Gilmour cantou e tocou a consciência da obra, num contraponto à absorção ao inconsciente que cumpriu Waters. A obra só chegou as nossas mãos graças a esse balanço justo e equilibrado de contrários. Se Waters foi quem socou a mão fundo no lodo lamacento do inconsciente, foi Gilmour quem nos fez entender esse inconsciente cantando e tocando o lodo com sua "sobriedade", seu entendimento. Ele adornou o lodo com flores dedilhadas para que fosse possível ouvir as palavras de Waters sem se sujar de lama "depressiva". Se misturando em um, Waters e Gilmour casaram seus opostos alquimicamente, mostrando a verdade de que "cada elemento encerra seu contrário dentro de si". Gilmour foi o feminino (Yin), Waters o masculino (Yang). Waters e Gilmour fizeram sexo... E nasceu seu filho "The Dark Side of the Moon" (Nick Mason e Richard Wright são seus queridos padrinhos).
No início, The Dark Side abre com maníacas risadas patetas e máquinas que soam como outras risadas, numa mudança somente de timbre. Logo vem o desespero atônito berrando para sair do mecanicismo suicida dessa vida. Esse grito por liberdade, apesar de suicida de insanidade, é o que nos mergulha na obra "anestesicamente". O início soa a uma vista de uma cidade e das coisas que ocorrem nela, mas na câmera lenta da contemplação, após a visualização da sucessão de desesperos que a sociedade contém. Com "Breathe" ouvimos suspiro da respiração pós-morte do acordar da loucura. "Breathe, breathe the air, don´t be afraid to care" (Respire, respire o ar, não tenha medo de se importar). Vá, respire, pois agora já não engolirá mais água se o fizer. É como aquele suspiro que damos depois de sofrer com a falta de ar sob a água, a água dos dias... Soa também às ondas e à visão serenamente sonolenta de alguém que reacorda da anestesia (acorda da Matrix) e bóia no meio do mar olhando para as estrelas. "Breathe" é uma asma calma... Uma ansiedade pedinte: "A ansiedade mais severa está associada a algum distúrbio no funcionamento do coração (...) É igualmente verdade que qualquer obstrução do processo respiratório produzirá ansiedade. Aquele que já observou uma pessoa asmática lutando pra respirar pode avaliar a ansiedade extrema resultante de alguma dificuldade respiratória. Freud também dizia que a respiração pode se associar ao psíquico, mesmo sem ser naturalmente produzida por ele. O coração pulsante, "Breathe" e a afirmação de Waters: The Dark Side Of The Moon era uma expressão de empatia política, filosófica, humanitária que estava louca pra sair". Revelam que esta obra é um anseio que começa pelo fisiológico da ansiedade. The Dark Side anseia por respostas. "Cadê a razão desta vida? Hein?!!?" "And all you touch, and all you see. I t´s all your life will ever be" (e tudo o que você toca, e tudo o que vê. É tudo o que sua vida será)! Nossa reação a isso pode ser subentendida como eu sou pouco como mero indivíduo e isso desanima ou de que esse pouco é amplo e isso anima pelo que não vivi. Esse trecho é uma cooptação sábia da vida, aos dados de sua natureza. É invejável quando uma banda está tão coesa em pensamentos e intenções, né? Como as letras dessa obra mereceram as melodias certas, cada uma delas. Até o Pink Floyd inveja hoje este momento que tiveram, olhando para frente com retinas de saudade. E como se deu o esquema de sons ali, né? Quando acaba "Breathe" morbidamente afirmando "You race towards an early grave" (Você corre em direção à uma tumba prematuramente) vem aquele seqüenciador que pretende simular os movimentos eletrônicos do dia, aquela loucura acelerada do metrô, dos carros e das pessoas, todas, segundo o que parece ser passado, perdidas em um objetivo comum. Ou poderia ser uma espécie de montanha-russa que nos leva pra dentro da profundeza mental, chegando aos cantos que guardam os pensamentos mais insanos (que são as risadas que ecoam como de cavernas longínquas) e sensações mais frenéticas (que é aquela guitarra. Sim! Uau! Aquilo é uma guitarra!) misturadas com a lembrança estressante do dia-a-dia e seus passos e risos tatuados energeticamente. Quando a última risada desta parte ecoa, enfim chegamos ao nosso destino, que são as profundezas da mente sem interferência da superficialidade que esta leu do dia. Talvez a explosão que marca o fim do seqüenciador seja apenas o som do vácuo numa caverna 20 kilômetros mente adentro, aonde nem os morcegos vão. Parece que o que se abre a partir daí é o inconsciente coletivo. Parece que ao fim do seqüenciador de "On The Run", chegamos à camada mais profunda da mente... O instrumental que abre "Time" depois daqueles relógios geniais (que ninguém espera!) (ideia de Alan Parsons, um gênio de produtor) parece ser a contemplação da pirâmide espiritual que permeia a obra sob uma noite de pesadas nuvens negras no deserto. Essa contemplação traz a maturidade das questões, parece que deixamos de ser crianças vagando pelo inconsciente seqüenciado e passamos ao menos a ter as rédeas de nossas especuladas certezas. "Time" é a primeira questão devidamente formulada. Os relógios são uma sacada da vida, perguntam "e a dita cuja?" "O que se fará com o saldo vivo que ainda tem nela?" O que fazer com a vida que passa apenas em tempo? Em tempo que apenas é tempo? Que tem recheio de atividades de passatempo e ganha - "money"? Que favor à reflexão tal crueza deprimente... "Hanging on in quiet desperation is the english way"(se agarrando em calmo desespero é a maneira inglesa). Waters carrega a cruz da Inglaterra inteira! O inconsciente coletivo abarca a todos. A passagem do tempo que agoniza estreitamente e nos coloca "shorter of breath and one day closer to death" (com menos fôlego e um dia mais perto da morte) é algo que ocorre a todos nós e mesmo inconscientemente, a questão do tempo passa por você, não interessando se é uma resposta boa ou não que se dê a ela. Essa questão chama o interesse, porque o ser humano se questiona e por isso avalia a morte de um jeito loucamente mais elaborado que os animais (com a pata das igrejas "cristãs" nisso tudo, que prometem o descanso eterno e nos convocam a chorar o ego depois). Para alguém tão preucupado com o tempo, Waters viveu bem! Essa música é o som do tempo em todos nós, ou melhor, da questão do tempo. "The time is gone, the song is over, thought i´d something more to say" (o tempo se passou, a canção acabou, pensei que tinha algo mais a dizer) Waters foi humilde e viu que suas linhas refletem sem um fim, são o refletir por refletir, como o espelho que não conclui o que reflete, só reflete. Por isso soa à pergunta sem interrogação no final. "Time" é uma certeza ignorante da vida, um alívio de um coração apertado de alguém que parece ter escrito isso numa rede olhando a chuva na varanda, vestida sob traje a rigor de uma das mais belas músicas. Nesta obra toda, o instrumental reflete o que é dito, a guitarra de "Time" tenta ser um consolo, ela puxa para cima e as palavras para baixo. "Time" são as palavras do sequenciador de "On The Run"!
Não se esqueça de que este é um álbum noturno, apague as luzes e verá que por dentro ele é tão negro quanto sua capa. Em "Breahte Reprise" note algo engraçado, parece que há um sexto instrumento junto com o baixo tímido e a bateria leve, além do orgão, voz e guitarra... Algo soa naquele silêncio... Eu percebi que são as trevas, a escuridão em si nos espaços que eles pensaram como "vazios". Waters sempre soube que maiores espaços evocam mais envolvimento com a obra por parte de quem a ouve. Surgem "coisas" nos espaços. Energias de pensamentos sentidos e até vibrações de seres cósmicos/espirituais. Esse "silêncio" pensado por eles é o lado negro da lua e acompanha toda a obra. Como eles perceberam esse lance dos espaços não faço ideia, "Breathe Reprise" é um suspiro! Ai, ai... Você lê aquela letra e visualiza a igrejinha além dos campos que chama à missa com seu sino. Tão simples como um chá. Parece que a lua em seu lado negro guarda os oceanos topográficos. Parece que a reflexão de The Dark Side é o vazio entre os nossos costumes, o vazio entre o pensar no costume e o envolver-se no prazer dele, no prazer de "When i come home, cold and tired, it´s good to warm my bones beside the fire" (quando chego em casa, com frio e cansado, é bom me aquecer ao lado da lareira). E esse vazio que fica na beirada em The Dark Side, como um vazio que a reflexão trouxe de outra dimensão.
E então chegamos ao ponto mais profundo e belo de The Dark Side Of The Moon, "The Great Gig In The Sky". Esta música beira o divino. Parece uma mescla de nuvens e poço. Interessante as figuras que aparecem em nossa mente quando ouvimos músicas assim. "The Great Gig" é o desespero que renasce o novo ser para a segunda parte do álbum. Soa aos desesperos mais solitários de um quarto escuro. Parece que o homem conseguiu ficar só e chorar as conclusões de "Breathe" e "Time", "onde está o porquê do inverno?" pergunta "The Great Gig"... Aqui larga-se a tal sociedade, se fecha no banheiro e a vomita em choros de morte. Waters aqui foi menina... Seu feminino. Veja que interessante, o lado masculino de Waters é tão pungente em suas lógicas sem respostas que quando cede à vida e não questiona mais seu "rio", desabrocha como uma menina... Menina, aliás, chamada Clare Torry. A filha da puta até processou o Pink Floyd para ter seu nome nos créditos de "The Great Gig"! Até que merece, mas só processou pela grana que fluiu do álbum. Pink Floyd e seus processos... "The Great Gig" se tranca no quarto escuro, mas também quer sair dele, creio que queira sair pelas paredes, derrubando e rasgando a carne da sociedade. Richard Wright (convenhamos, que nome próprio para um pianista e escritor, né?) nos mostra aqui que não é preciso solar como um maluco para fazer uma das mais lindas melodias em um piano terrestre. Seu piano traz uma luz clara, consciência à obra. Parece que ele toca numa ampla sala branca e vazia de uma mansão branca na beira de um penhasco que dá para o mar... É tão só... É como se Clare Torry fosse a proprietária desta mansão do penhasco do mar e subisse e descesse suas escadas sempre só e chorando por ser só... Tendo como uma única companhia, o fantasma que senta na sala para tocar piano toda noita à uma e quinze da madrugada. Ela não sabe quem é mais só... Ela ou o mar? Fitando o mar, tristemente só, com seu campari na mão... Um dia ela bebe e se joga do penhasco ou já tenha se jogado... Mas continua vagar pela sua casa... Wright e Torry se casaram ali... De modo divino. Na parte desta música em que entra a bateria e a louca se racha e borra de gritar, eu percebo a pirâmide da obra. Parece que, enfim, os anseios chegaram aos céus como gritos. “Gritar é algo poderoso sobre a personalidade, em termos de catarse. Durante muito tempo foi a técnica da bioenergética. O grito é como uma explosão dentro de uma pessoa, em sua personalidade" - Alexandre Lowen. Bom, um suicida pula do banco se tiver essa faixa com uma corda no pescoço... Um suicida só ouve essa obra até a faixa 4. Quando eu ouço essa música no escuro, parece que a mulher grita no corredor! Dá certo medo... Aquele é o choro de Waters e o sincero lamento choroso que todos damos ao menos uma vez na vida... São as lágrimas da lua. Foi tanta a consciência que eles conseguiram alcançar com este pânico delirante que eles conseguiram chegar à "consciência de sociedade" em "Money", saíram definitivamente das dúvidas que pareciam assombrar mais ao indivíduo que a outros ao seu redor, para dar um salto a um tipo de consciência da razão da qual derivam as sombras pequenas do indivíduo. Chegou-se à politização da dúvida, à uma espécie de consciência socioeconômica das razões que regem nossas distâncias, em breus que viram penumbras à primeira vela a clarear de fato o lado negro: "Money, so they say, it´s the root of all evil today" (Dinheiro, assim eles dizem, é a raíz de todo o mal hoje). The Dark Side foi tão a fundo pelo desespero zumbi de observar a vida cultural que chegou aos valores burgueses-capitalistas que imperam entre nós. "Toda sociedade é reflexo da classe dominante dessa sociedade" - Lênin. Com certeza, a frieza que aparenta a letra de "Money" e "Us and Them", deriva, e muito, de uma história fria de guerras e ditaduras (que até hoje se arrastam em "intervenções militares"e eleições burguesas). Nossa história foi herdada psicologicamente. Até hoje as distâncias são manipuladas pela burguesia (detentores dos meios de produção, como bancos, multinacionais, mídia e seus governos), que se utiliza de sua polícia fascista quando trabalhadores praticam um ato de irmandade de uma greve ou piquete. Siga o outdoor, meu caro! Siga o outdoor! Pois você será mais que eu se tiver aquele carro, aquele celular ou aquele papel higiênico de folha dupla!
Em "Money" se critica, mas nada se conclue. As pessoas continuam estranhas entre si, ainda ninguém revela quem é, se é que sabe! Tudo assombra ainda. "Us And Them" é o nome do assombro. Nunca um pensamento foi cantado assim, parece que sequer saiu do pensamento que a gerou! Não ouvimos "Us And Them", a meditamos... Um nômade chamado Dick Parry a conta com seu sax. Aqui Waters se vestiu de general, e esse general chora ao ver a morte no front. Ele caminha de um lado a outro da sala e adoraria dar os gritos lamentosos de "The Great Gig", mas não pode. É o general, o último que deve perder a cabeça. Ele chora andando e sentando, mas nunca chorando... Nós, os generais de nossas vidas, às vezes fazemos o mesmo... Quando? Só você sabe. Como somos o general e também os soldados rasos de nossas vidas, podemos concluir como generais, mas sempre estando livres para chorar como soldados rasos o que acabou ou sequer deu certo. "Us And Them" lembra uma situação de guerra. Parece a reflexão da primeira carta escrita por um general sobre toda a desgraça que viu. Na carta, ele concluiu que "nós" e "eles" (o inimigo de guerra) são apenas "ordinary men" (homens ordinários). Perceba que os estereótipos do "vazio" são vários, a moça suicida em "The Great Gig", o burguês em "Money", o general em "Uns And them" e o louco em "Brain Damage". Aquela parte "Listen son, said the man with the gun, there´s room for you inside", me lembrou aquela parte do documentário "Farenheit 9/11" aonde 2 oficiais das forças armadas perseguem jovens nas ruas tentando convencê-los a servir no massacre no Iraque. Esses jovens negros e pobres, sustentam seus sonhos de porques de viver, e quando acham que não há razão em suas vidas, parece o homem com a arma dizendo "there´s room for you inside" (há lugar para você aqui dentro), aqui dentro de sua "early grave" (tumba prematura). A letra é ilustrada assim, mas tem haver com todos nós. Não sabemos mais que o "nós", "eles" são um eterno mistério. Mesmo a Ciência é o "nós" e seus objetos de estudo o "eles". As partículas subatômicas não podem ser definidas no tempo-espaço, é dito que elas apenas tem "tendência para existir". O que existe é o nosso mundo particular, com o qual alteramos e distorcemos o mundo "lá fora". Será que já existiu o mundo de verdade? E o "existir", existe? Ou será que só existe o meu? Talvez o "eles" seja um sonho... E o "nós" também... Pensando assim, entramos com dignidade lunar em "Brain Damage". O nômade que passeou pelas ruas, talvez um mendigo, virou o lunático de "Brain Damage". Realmente Waters ficou louco aqui porque teve a audácia de insinuar que tudo que observou até aqui saiu de sua mente somente, sem envovimento de seu coração. Ninguém escreve assim sem coração! Mesmo tendo pensado mais que sentido. Não é que se é lunático ou se tem o cérebro danificado, é que o cérebro fica maluco se quiser dar uma de coração. Waters disse que essa música é sobre a noção de ser diferente e que tem haver com Syd, mas tem é haver com ele próprio, com aspectos do Syd que ele viu em si, como eu disse antes, Syd martelou em seu inconsciente. Waters foi ao seu mais profundo pensamento e lá, numa saleta escura, encontrou Syd que o disse "OI"... "Brain Damage" é uma autoanálise de Waters como ego "quem é esse que ri e fala com os amigos e SE é nas situações do dia? Waters chegou a um nível de autoconsciência aonde seu Eu superior se separa do ego mundano que não se vê contente, mas como um nome que anda e fala e se pergunta "quem sou eu?" Esse lunático que precisa ser mantido no caminho, no pátio, é a consciência superior que passa a se observar. Você já se olhou no espelho e perguntou "quem é você?" Se já, não ache que é a adolescência ou seus resquícios, é que você já alcançou a separação dentro de ti, entre esse teu eu de teu nome e esse de sua alma. Essa separação clama até arrombar a porta do seu inconsciente para sair de dentro de você, como uma flor e uma borboleta precisam crescer... "You lock the door and throw away the key, there´s someone in my head and is not me” (você tranca a porta e joga a chave fora, há alguém em minha cabeça e não sou eu). Esse alguém arromba seus abismos mentais e se parece com alguém que não é você, se antes você jogou a chave de sua personalidade real fora. Então seja gay, lésbica ou os dois! Seja o profissional que sempre quis ser! Brinque, se divirta, curta a vida! Mande para longe aquela pessoa ou situação que é um saco! Cumpra aquela promessa! Declare aquele amor de joelhos! Tire a roupa! Faça aquela viagem, mesmo que só! Assuma você! Aquele que te pede "ME SEJA" dentro de ti! Ou então encare o lado escuro da sua lua.
Esse lunático de Waters é também o de todos nós, que se exibe deitando nu na frente da casa de nossa consciência, quando ignorado como uma parte de nós que não existe. "Se o homem persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio!" - Willian Blake. E o fim chega com essa certeza! O fim explode como um novo início! Parece que enfim chegamos ao nosso destino, viajando pelo inconsciente: "Tudo o que conheço, mas não penso num dado momento, tudo aquilo de que já tive consciência mas esqueci, tudo o que foi percebido pelos meus sentidos e meu espírito consciente não registrou, tudo o que involuntariamente e sem prestar atenção (isto é, inconscientemente) sinto, penso, relembro, desejo e faço, todo o futuro que se prepara em mim e que só mais tarde se tornará consciente, tudo isso é conteúdo do inconsciente!" Compare estas palavras de Jung com a letra de "Eclipse":

Tudo o que você toca
Tudo o que você vê
Tudo o que você prova
Tudo o que você sente
Tudo o que você ama
Tudo o que você odeia
Tudo o que você desacredita
Tudo o que você salva
Tudo o que você dá
Tudo o que você negocia
Tudo o que você compra
Pede, pega emprestado ou rouba
Tudo o que você cria
Tudo o que você destrói
Tudo o que você faz
Tudo o que você diz
Tudo o que você come
Todos os que encontra
Tudo o que suaviza
Todos com quem luta
Tudo o que é agora
Tudo o que passou
Tudo o que está por vir
E tudo que está sob o sol está em sintonia
Mas o Sol está eclipsado pela Lua
Se tudo sobre o sol está em sintonia, se somos assim por vontade divina, se o rio corre como nós caminhamos, se devemos ser felizes por exercermos comunhão natural, nossa comunhão continua obscurecida pelo inconsciente, ditando nosso dia-a-dia militar por busca de significância. Por mais que Waters conclua isso no final como a questão da sociedade, ele conclui. A obra assim, SE concluem assim, e se joga numa dúvida cíclica, redondamente eclipsada, que nos faz ouvir tudo de novo num misto de prazer e procura. Mas a sombra da dúvida me examina mais a mim do que eu a ela e me passa uma rasteira quando eu pensava que tinha ela nas mãos. Digo isso porque a resposta desta obra é hermética e conclui afirmando tão sutilmente que tudo aprece ficar suspenso no ar! "Me desvende ou te como dúvida!" “Como dúvida” diz a Esfinge. Não há coisa mais sozinha que "Eclipse". É uma afirmação eremítica de alguém que só parece ter aberto a boca uma vez na vida para falar isso. O que a voz afirma se conclui pelas estrelas no negro-instrumental, ouça bem. O que há dentro do que há. Sabedoria de Ermitão que nem Waters compreendeu e continuou perguntando nos álbuns seguintes, navegando atrás da busca de sentido até bater a cara numa parede e levantar a eremítica questão:

"Há alguém aí?"
Walter de la Mare - "Os Ouvintes"

Há alguém aí? Perguntou o viajante
Batendo à porta banhada de luar
E seu cavalo no silêncio emoeu as ervas
Do chão de samambaias da floresta
E um pássaro ergueu-se, voando da torre
Acima da cabeça do viajante
E ele bateu à porta pela segunda vez
'Há alguém aí?' Perguntou
Essa é a poesia mais Pink Floyd que conheço…
Como um alquimista do século XV, Waters tenta desvendar a lua pelo intelecto, mas ela sempre se esconderá de sua razão. Os segredos da natureza, diz-nos ela (a lua), só se revelarão através do contato íntimo de mãos delicadas e um coração compreensivo! Por isso talvez que eu perceba que a guitarra e a voz de Gilmour parecem reinterpretar a mensagem escrita. Waters pergunta “quem sou eu?” à Lua e esta responde pela guitarra e órgão hermeticamente: "Você é tudo o que sempre foi e sempre será"... Parece que as questões da Terra se respondem acima dela. Hoje, o homem moderno lançou, através das nuvens, em seu espaço, navios destinados a pousar, imprudentes, no lado escuro da lua. Mas sem nenhum proveito. O segredo de seu brilho interior ainda permanece oculto. Os homens do espaço não trouxeram de volta nenhum raio mágico de lua para iluminar nossos sonhos e também nos espantar. Partiram carregando consigo um saco cheio de rochas monótonas e deixando para trás, na superfície lunar, a marca registrada do homem moderno: uma área de estacionamento!
Se o "sol está eclipsado pela lua", eu contraponho a afirmação por "nós somos do Sol"!
Afinal a visão da lua é a Terra...
E a lua é linda...
E então.. E então…  Você descobre o que sempre soube… Que não existe um lado escuro da lua… Na verdade, ela é toda escura!

Um comentário:

Marcos Pimentel disse...

Adilson, não sei se você vai ler este comentário. Afinal já se vão quase seis anos desde que você fez este post. Entretanto, eu não poderia deixar de comentar que as suas considerações acerca do Dark Side (juntamente com a audição simultânea à leitura de alguns álbuns-tributo ao original, colhidos aqui na web) me proporcionaram a melhor de todas as imersões que já fiz nesta obra. Lamento não ter vivido esta experiência em 2011, mas acredito muito na questão de haver o tempo certo para que tais coisas aconteçam.

MUITO OBRIGADO, CARA!